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  • SBSR '11

    22 jul 2011, 00:29

    Thu 14 Jul – Super Bock Super Rock 2011

    À semelhança do ano anterior, uma review extensiva do evento que este ano nos trouxe um cartaz de topo e milhares à Lagoa de Albufeira.

    1. Localização

    Se muitos discutem o local não ser de todo o adequado dada a única estrada de acesso e o pó constante no recinto, a Música no Coração não foi de facto burra em escolhê-lo. Visto de fora (e até de dentro), a costa da margem sul é um local idílico e próximo da capital: no cimo de um monte repleto de árvores, o recinto, na Herdade do Cabeço da Flauta, é circundado por floresta, a escassos metros da Lagoa de Albufeira (uma alternativa bastante viável e muito mais rápida que o Meco, para quem se dedicasse um pouco à exploração), uma lagoa repleta de parques de campismo e famílias a fazerem piqueniques na praia, que tem o seu inicio no Atlântico. Ao longo da costa, para sul, temos a Aldeia do Meco, para onde os autocarros se dirigiam, e, mais longe, o belo e vertiginoso Cabo Espichel, conhecido pelas suas famosas pegadas de dinossauro.
    De paisagem, tudo perfeito. Pior é mesmo o local ser cruzado por uma única estrada, a estreita N377, repleta de curvas e no meio do mato. Bem as autoridades e os arrumadores do festival tentavam despachar o trânsito o melhor que podiam (a estrada chegou mesmo a ser cortada para quem não pretendia aceder ao festival, apresentando-se um desvio alternativo), mas a enchente foi incontrolável e voltaram a verificar-se os mesmos problemas do ano passado: filas enormes e concertos perdidos para aqueles que não podiam vir mais cedo, ou que escolheram mal a hora. No entanto, se há alguém na organização que fez um bom trabalho, tiro o chapéu aos arrumadores. Sempre eficientes, rápidos, dia e noite.

    2. Dia 0 / Campismo

    Se o ano passado pouco mais havia no campismo à hora de abertura que cinco tendas, este ano dei com uma fila enorme de pessoas repletas de bagagens volumosas logo pela manhã. A segurança não estava propriamente apertada: a única coisa com que se preocupavam era o vidro. Provavelmente entraria com uma pistola no bolso, desde que não fosse de vidro. Não que me queixe especialmente, dado que o ano passado o controlo chegava a ser demasiado apertado, gerando filas desnecessárias para tudo. Não tardou muito até que a organização "reparasse" que tinha demasiada gente para o espaço que tinham disponível, e viram-se forçados a abrir novas zonas no campismo, que acabaram por ficar extremamente longe de tudo o resto: da entrada, das casas de banho, dos chuveiros, da alimentação. O cenário ganhou em poucos minutos desde a abertura das portas a aparência de um campo de refugiados. Tudo o que havia presente na zona de campismo era seriamente insuficiente para o número de pessoas que lá estavam. Lavatórios, chuveiros, casas de banho, até um supermercado extremamente ridículo, mais pequeno que a barraca de cachorros da frente, onde aproveitaram para meter tudo a preços exorbitantes, como se a cerveja a 2€ já não fosse suficiente. Naturalmente, com o número reduzido de tudo, haviam filas por todo o lado, a água para lavar as mãos ao lado das casas de banho acabou ainda não era meio-dia, e já as sanitas estavam atulhadas de lixo que muito raramente era limpo.
    Mas pronto, são as críticas gerais com que todos temos de concordar, sejamos homens barbudos do campo ou não. Pessoalmente, a mim não me fizeram diferença, já lá tinha estado o ano passado e sabia razoavelmente o que vinha aí, e vim preparado com tudo de casa. As filas foram uma questão de evitar certas horas. Os autocarros foram uma questão de não os usar, que andar a pé pelo campo faz bem. Mas compreendo perfeitamente todas as críticas de quem se sentiu afectado por todos esses pontos.

    3. Dia 1

    Finalmente, depois do marasmo que é sempre o primeiro dia, vinha aí o primeiro dia do festival. Nota positiva para finalmente deixarem entrar garrafas de água com tampa (pelo menos a minha não foi barrada em nenhum dos dias), o que me deve ter poupado uns 20€ em cerveja. Com toda a gente que este ano trouxe, o recinto que o ano passado parecia belo e expansivo, este ano mais parecia uma lata de conservas cheia de areia, tão difíceis eram as deslocações por mais pequenas que fossem. O recinto ultrapassava completamente a sua lotação máxima por vários milhares, e em cada pequena banquinha, haviam filas e multidões. Sean Riley and the Slowriders abriram o festival, já para uma massa humana considerável, bem educada nas palmas e nos festejos, deram-me a entender que o público, maioritariamente mais jovem, estava ali para a música, o que era já uma melhoria bastante grande desde o ano passado. A música de Sean Riley ecoava pelo recinto, e tinha sido uma escolha perfeita para iniciar o festival. De patilhas bem compridas, os portugueses distribuíam riffs com sabor americano, de folk-rock tão bom para dançar como para ficar sentado no chão a apreciar o final do dia. Afonso Rodrigues demonstrou ser um carismático frontman, visivelmente feliz com a reacção do público e que até nos convidou para irmos à caravana dele jogar um dominó. Ainda vi um pouco de The Walkmen ao longe, mas nunca me cativaram muito, nem conheço bem o seu trabalho.

    Segui para o palco secundário com a devida antecedência para ter tempo de arranjar uma boa posição antes de começar Tame Impala. E ainda bem que lá estava. Pontuais, os australianos de cabelo comprido e cara de quem está completamente pedrado despejaram uma excelente actuação, no ambiente perfeito e repleto de árvores do palco secundário. Oscilando entre o psicadélico e um rock mais catchy, o som dos Tame Impala encaixa perfeitamente, unia-se com o local, com as pessoas, com as vozes, os ecos, o pôr do sol lá atrás. Uma experiência fantástica e completamente inesperada para mim, que em álbum, nunca os achei nada de especial.

    Segui para os The Kooks. Não tinha grande curiosidade em vê-los por já o tinha feito no Alive, quando a música deles me atraía muito mais, e devo constatar que evoluíram. O concerto deste ano foi mais maduro, o som e a actuação muito mais cativantes, e o público (especialmente feminino) começava já a aquecer. Ainda recebemos a Seaside de oferta, balada que me teria feito as delícias há uns tempos (bons velhos tempos a aprender guitarra com essa música). As novas músicas não me agradaram muito, apesar de diferentes do estilo actual não tinham tanta daquela essência de verão do primeiro álbum (e parte do segundo).

    Beirut, uma das bandas que gosto mais de ouvir por cá enquanto faço outras coisas, infelizmente foram uma desilusão quando fico uma hora a olhar para eles. Nada a apontar à qualidade dos músicos, que deram uma prestação excelente, nem à música em si, que é uma autêntica viagem étnica pelas estreitas ruas europeias. Zach Condon tem uma excelente voz. No entanto, presa entre Kooks e na ânsia do público por Arctic Monkeys, a banda estava definitivamente deslocada. Talvez brilhassem muito mais no ambiente mais íntimo e recatado do palco secundário.

    Finalmente, Arctic Monkeys. A multidão vibrava de antecipação, pela primeira vez no festival, reuniam-se os grupos na frente, esticavam-se os membros, os olhares não deixavam sombra de dúvidas antes da batalha: ia haver pó. E 10 minutos mais cedo que o previsto, levantou-se pó, e mesmo muito pó. Iniciando com uma Library Pictures explosiva, Alex Turner, casaco de roqueiro e cabelos à beatle, via crescer à sua frente provavelmente a maior nuvem de pó do festival enquanto a multidão enlouquecia e o mosh começava na frente. Mas nem por isso foi cortada a energia. Seguiu-se uma setlist de grande qualidade, passado por todos os grandes momentos da banda, entoada de coração por quem ainda não tinha sucumbido à poeira que voava por todo o lado. Encerrou a actuação a 505, já no encore, daquele que foi sem dúvida o concerto que mais me marcou no SBSR.

    Queria ainda passar pelo palco electrónico para dar uma olhada a James Murphy às 4, mas as forças, tanto as minhas como as dos amigos, depois de ter estado na frente nos macacos, não eram suficientes e acabei na tenda. Fica para outra altura.

    4. Dia 2

    Se já no primeiro dia era difícil circular no recinto, no segundo era praticamente impossível. Haviam pessoas em todo o lado, sem um único espaço vazio. Extremamente desconfortável. Noiserv abriu o dia com os seus belos loops e multitude de instrumentos. Apesar de aplaudido pelo público e de uma boa prestação no geral, acompanhada de desenhos em tempo real, não era difícil perceber que estava algo deslocado ali, e que, tal como Beirut, talvez encaixasse melhor na espiritualidade do palco secundário.

    Esperava Rodrigo Leão com alguma curiosidade. Apesar de não conhecer bem o seu trabalho, sou um grande apreciador do seu estilo de música, descontraído, e, apesar da "orquestra", relativamente simples. A banda esteve muito bem, bastante descontraídos e a apreciar realmente a música, pior foi quando entrou em cena a vocalista. Apesar de irrepreensível a voz, estava visivelmente mais tensa, e pessoalmente gosto mais das músicas instrumentais. Mas são gostos.

    Saí um pouco mais cedo para arranjar lugar para B Fachada. Nunca o tinha visto ao vivo e tinha bastante curiosidade em saber como seria a experiência. Surpreendeu-me bastante. Fachada comunicava na perfeição com o público, sempre com as habituais gotas de gozo e sarcasmo que lhe enchiam também as letras, entoadas por quem por lá o estava a ver. Nunca fui grande apreciador da sua voz...uhm, única? em álbum, mas gostei bastante ao vivo.

    Saltando The Gift para ir comer, acabei por também perder para grande pena minha The Legendary Tigerman, que, segundo consta, deu festa, mas foi necessário para furar para Portishead e Arcade Fire antes que a multidão apertasse ainda mais. Provavelmente a maior desilusão que tive no festival foi comigo mesmo, por não conhecer adequadamente Portishead. No entanto, as batidas limpas e fortíssimas, que abalavam o chão, cativaram-me imenso e colocaram toda a plateia em transe. Continuo a achar que mereciam estar depois de Arcade Fire no cartaz, à semelhança de Leftfield no ano passado, que deram um espectáculo excelente, impossível em qualquer outra hora.

    E finalmente, os tão esperados Arcade Fire. Apesar de não estar lá principalmente por eles, gosto imenso da sua música, e tenho que confessar que foi um concerto memorável. Novamente uma setlist que passou por todos os momentos da sua carreira, muito aplaudida pelo público. Épica actuação em palco e efeitos visuais, o momento que me venceu por completo foram as palmas do público a preto e branco nos ecrãs gigantes, quando regressavam do encore e começavam os primeiros acordes da Wake Up. Embora não o meu favorito, provavelmente o melhor concerto do festival.

    Não tão cansado como no dia anterior, segui para Chromeo, que dominavam o palco secundário e que deram outra das grandes actuações do festival. O seu disco-funk completamente roubado às pistas dos 70s e 80s mostrou-se uma das melhores alternativas após Arcade Fire, e o público incendiava-se na dança efusiva que era cada minuto das músicas do duo canadiano. Muito bom, uma das únicas bandas que desejei que nunca se fossem embora.

    Já que passei a noite no paleio depois de Chromeo, ainda deu tempo, ao nascer do sol e sem vontade de dormir, de ir espreitar pela primeira em dois anos, o palco electrónico, depois de um gajo no campismo nos dizer que estava lá a "bater um trance fodido". E lá corremos nós pela poeira antes que o relógio chegasse às 6 da manhã, já se via o sol no horizonte. O "trance fodido" pertencia a Sven Väth, que apesar de me agradar nos primeiros minutos dez minutos, a batida hipnótica que se marcava constante não era definitivamente para mim, e não tardei a regressar à tenda.

    4. Dia 3

    Depois de umas quantas aventuras pelo terceiro dia (quem estava do lado esquerdo do acampamento, o mais estreito, deve ter ouvido de certeza os gajos que nunca mais se calavam com os megafones, com direito a trepar árvores e tudo), cheguei mais cedo ao recinto de propósito para ir dar uma olhada às actividades todas que por lá haviam, e receber aquelas t-shirts fixes com patrocínios e coiso.
    Abriram os X-Wife, dos quais infelizmente só conhecia as mais conhecidas. O público estava visivelmente cansado, e da euforia que os Slowriders encontraram quando abriram com chave de ouro o festival, estavam-na a guardar para Slash e Strokes. Não propriamente memorável.

    O marasmo era tanto no palco principal que fui mais cedo para o secundário para ver uma das minhas actuações mais esperadas, a de Paus. E não desiludiram. O som, grande, pesado, épico. Entre um pós-rock distorcido e as baterias siamesas a dirigirem o som com ritmos contagiantes que recordam os primeiros EPs dos Battles, foram sem dúvida uma das minhas actuações preferidas do SBSR, chego até a colocá-los acima da experiência sinestésica que foram os Tame Impala. Espero, e quero, ver mais vezes.

    Cheguei ao principal tocava Brandon Flowers as últimas músicas, melhor do que pensava, mas nada de especial. Pena a Mr. Brightside ser a única cover dos Killers que decidiu oferecer-nos.

    Conheci Elbow três dias antes do festival. E foi o suficiente para saber que o que vinha aí era muito bom. Pena que a maior parte das pessoas não fizesse ideia. As músicas dos Elbow são calmas mas orquestrais, lindas, grandes, como se fosse no café que bebemos descontraidamente ao final da tarde que conhecemos o amor da nossa vida, e como se esse dia fosse o último. Rock progressivo reminsciente de Genesis bastante contagiante. A simpatia de Guy Garvey não tinha limites, e conseguiu o aparentemente impossível peso de ter um público às suas mãos que não o conhecia de lado nenhum. Espero que voltem em nome próprio.

    Para dizer a verdade, só estava na fila da frente em Slash pelo achievement de o ver, para guardar lugar para Strokes e porque tinha esperança que tocasse umas covers de Guns N' Roses. E assim foi. Não gosto, nem gostei das músicas do novo álbum dele, que não mexeram sequer o público do lugar. Rock com solos demasiado genérico e igual a todos os outros, mas foi a tocar a Sweet Child o' Mine e a Paradise City que Slash (e Miles Kennedy, que teve uma excelente prestação) esteve no seu auge, conseguindo finalmente cativar a multidão e ecoando finalmente o coro de músicas velhas conhecidas de toda a gente.

    A espera pelos The Strokes foi das mais desconfortáveis que tive durante todo o festival. Preso na segunda fila, a multidão adensava-se tanto que era difícil mexer os braços sequer. A tensão vibrava pelo ar, com cara de que se ia iniciar uns Arctic Monkeys parte II. E o inicio foi novamente explosivo. Não sei como foi lá atrás, mas na frente a multidão saltou como se todas as energias estivessem acumuladas para aquele momento. Não foi propriamente violento, como no penúltimo dia, mas continuou a celebração enquanto os grandes Strokes estavam em palco. Casablancas mais comunicativo que o habitual (apesar de completamente bêbado pelo que parecia), com o seu clássico humor de "vão-se foder, vocês adoram-me", deu uma performance meio cambaleante, meio competente, que passou por todos os hits e mais alguns. Não atingiu a loucura dos Arctic Monkeys ou a grandeza em palco dos Arcade Fire, mas foi um bom concerto, muito ajudado pelo público. Não me importo muito com a falta de encore, embora a saída de palco repentina tenha sido bastante inesperada.




    E assim foi esta edição do SBSR. Com sorte para o ano Paredes!
  • SBSR '10

    19 jul 2010, 20:47

    Fri 16 Jul – Super Bock Super Rock 2010

    (sim, é grandito, porque é uma review dos 4 dias de todas as bandas que vi. metia com todo o gosto fotos, mas tive que poupar a bateria do telemóvel dado que como vou referir mais à frente, não havia onde o carregar)

    Ainda era de manhã, no dia anterior ao ínicio do festival, quando cheguei ao recinto. Mais para os lados da Lagoa de Albufeira que para os da própria Aldeia do Meco, o recinto localiza-se na Herdade do Cabeço da Flauta, um espaço amplo e campestre (a falta de acessos, recursos e luz faz-nos até a certa altura acreditar estarmos completamente no meio de nenhures). O solo é de terra batida, e por todo o lado voa poeira.
    Algumas tendas já se começavam a aglomerar no campismo, localizado mesmo ao lado do recinto do festival, numa entrada secundária. Desde cedo que se percebeu que o festival decerto não primava pela organização. Ainda antes de começar, eram incertas as regras sobre o que era ou não permitido levar para o campismo e para o recinto, situação que aparentemente não se mostrou resolvida durante os três dias, e a cada dia que passava a (bastante) apertada revista por parte da polícia seguia novas regras. Além de uma zona de chuveiros e outra de casas de banho de plástico, zona relativamente plana, o resto da zona de campismo situava-se num declive algo acentuado, e embora me tenha ficado pela zona plana, desconfio não ser de todo confortável dormir aí.
    A publicitada zona de carregamento de telemóveis, nem vê-la, ou sequer ouvir falar dela. A quem perguntei, tanto seguranças como organização, aparentemente ninguém sabia da sua existência. Mais tarde vim a descobrir que se situava dentro do próprio recinto do festival, na tenda da EDP, onde era possível carregar três telemóveis ao mesmo tempo (ridículo!), através de painéis solares. Para além do mais, de nada serviam os carregadores, dado que os painéis apenas suportavam alguns modelos. Uma das maiores falhas, prejudicando principalmente os campistas sem outros meios de contactar o mundo exterior.
    Outra das falhas que foi notória já no primeiro dia foi a falta de água. De facto, dada a atmosfera constantemente saturada de poeira, cheguei mesmo a acreditar estar no meio do deserto. A única água potável existente que não custasse dois euros na banca de cerveja mais próxima estava nos chuveiros, dado que até a da zona das casas de banho, abastecida por um pequeno tanque, estava constantemente a escassear.
    Dos tão falados autocarros grátis para a praia, aparentemente também ninguém sabia deles, facto que levou muita gente sem carro próprio (incluindo-me a mim e amigos com quem fui) a ficar de fora da festa de recepção do campista que se deu no Meco. Folhetos do festival, com horário e bandas, tive que o ir pedir à bilheteira, onde me informaram que não podiam dar a toda a gente porque tinham muito poucos. Aparentemente, não me parece que esta situação tenha mudado, dado que vi muito pouca gente com o folheto, e muitas até tinham papéis imprimidos da Internet com os horários.

    Mas, terminada a análise dos problemas e do primeiro dia para os campistas, eis que chega o primeiro dia de festival. O acampamento não pára de crescer, e a poucas horas da abertura das portas já é praticamente impossível arranjar um sítio onde colocar a tenda que não obstrua nenhum caminho ou a porta de alguém. Visto de longe, o monte onde se situa o campismo está completamente pontilhado pelas vibrantes cores das tendas.

    Assim que entrei no recinto, tive uma primeira impressão muito positiva em termos de distribuição do espaço. É bastante grande e livre, os palcos estão localizados em locais agradáveis e de fácil lembrança, bem como as tendas. O palco EDP, secundário, é provavelmente dos mais agradáveis que tenho memória: localizado entre algumas árvores onde os espectadores se podem sentar à sombra, o espaço é grande o suficiente (ao contrário do reduzido Palco Super Bock do Alive) e a localização suficientemente isolada de toda a confusão do palco principal e das bancas de comida. Já ao palco principal, há certos elementos negativos a apontar. O primeiro é, de facto, o pó. Sei que já falei dele vezes sem conta, bem como toda a gente que foi ao festival (e quem fala do pó no dia do Prince não esteve certamente na fila da frente em Vampire Weekend!), mas é uma problemática bastante grande que geralmente estragava os melhores momentos de êxtase geral do público, sob o perigo de asfixia em massa. Outro pormenor que considerei um problema foi a torre central, que separa a metade direita da metade esquerda da "plateia". Além de dificultar a passagem entre os lados, compartimenta demasiado o público; cheguei a reparar em concertos que encheram apenas uma metade, ficando a outra praticamente vazia. Quanto ao palco Meco, não era propriamente um dos meus pontos de interesse, portanto apenas reparei que se situava numa tenda, bastante parecida com a do palco secundário do Alive.

    Mas, adiante, os concertos. Jamie Lidell abriu as honras do palco principal no primeiro dia. Energético e raramente parado, dirigiu uma multidão que crescia lentamente por entre uma sucessão de soul/funk infuso com electrónica. A dado momento chegou mesmo a ficar sozinho no palco, servindo-se apenas da voz e de loops para criar uma música inteira. Um concerto muito bom, que teria certamente sido explosivo caso fosse colocado noutra hora. Seguiu-se Mayer Hawthorne, companheiro do soul, do qual apenas vi a primeira metade. Mais calmo e contido, mas com não menor reacção do público, chegou a ter coros em "Maybe So, Maybe No". Ao mesmo tempo que o Sol se começava a pôr, iniciava-se Beach House no palco secundário. O duo formado por Victoria Legrand e Alex Scally, apesar de pouco comunicativo (e um pouco monocórdico quando tentava comunicar), deu um bom concerto, com vários momentos apoteóticos que só pecaram pela fraca adesão do público, à excepção de uns quantos resistentes que insistiam em bater palmas. No entanto, o ambiente do palco secundário e o Sol, cada vez mais fundo no horizonte, conferiu ao duo e ao seu dream pop com raízes shoegaze um cenário perfeito para soltarem toda a sua espiritualidade, e momentos como a Zebra, a Silver Soul ou a Norway, foram incendiários para os que para aí estavam virados.

    A noite caía, e Cut Copy foi a hora da fome, pelo que me fiquei por ouvir ao longe. No entanto, não faltava muito para os britânicos Keane entrarem em palco. Embora deva confessar que não conheço muito do trabalho dos Keane, é quase impossível desconhecer o nome, ou algumas das músicas. No lado direito do palco, pelo menos, era notório que grande parte das pessoas que ali estava conhecia bem Keane, notado pelas inúmeras t-shirts e ausência de pulseiras de campismo. E decerto que a banda sabia disso, porque quer o público os conhecesse ou não, a sequência de músicas com que introduziram o concerto foi demolidora; e fez-se poeira. Mesmo pelos momentos mais calmos e sentimentais, o público seguia Tom Chaplin em uníssono.

    Acabados os Keane, houve ainda tempo de ver o final de Grizzly Bear, que vi de longe. Apesar do público não me parecer propriamente energético, os próprios Grizzly Bear estavam muito mais energéticos do que esperava, sendo em álbum uma banda relativamente calma. Pet Shop Boys estavam a começar. Embora também não conheça muito, fui no intuito de gastar algumas calorias com o synthpop remniscientes dos 80s, e devo dizer que, não só para mim como para toda a multidão que lá estava, corresponderam na perfeição. Nos momentos em que a energia faltava ao carismático vocalista, que trocava de roupa a cada 5 minutos, havia espaço para um espectáculo teatral memorável, dado pelos dançarinos da banda, perfeitamente sincronizados ao mais ínfimo pormenor. Passando por momentos de puro synthpop, com refrões facilmente cantáveis e dançáveis, por momentos com menos energia mas não menos mestria, Pet Shop Boys fizeram chover confettis prateados sobre a multidão enquanto o palco explodia em luz, e levantaram poeira suficiente para encobrir a tenda Meco, para onde a maior parte das pessoas foi após a banda terminar a sua actuação.

    Segundo dia. Julian Casablancas e Vampire Weekend eram um must-see para mim, pelo que me decidi ficar pela segunda fila. E devo dizer que as horas de desidratação e cansaço valeram bem. Tiago Bettencourt foi competente e até energético, nos limites das suas músicas, mas não parecia com muito boa disposição. Assim que saiu do palco, uma multidão começou a encher rapidamente as fileiras do palco principal. A primeira actuação do carismático frontman dos Strokes estava prestes a começar. Embora largos minutos atrasado e queimando um rastilho incandescente, mas curto (apenas 40 minutos), Casablancas provou que muitas vezes a figura icónica vale mais que a música que faz, bem como a hora a que toca. Assim que entrou em palco e os primeiros acordes soaram, o público não se importou sequer que a sua voz estivesse quase que afogada pela sinfonia proveniente da banda e do público em uníssono (embora após algumas músicas o problema do som tenha sido resolvido). Os ânimos, pelo menos na parte frontal, onde me encontrava, exaltaram-se ainda mais na tão aguardada Hard to Explain, uma viagem ao território Strokes. Apesar da voz visivelmente ébria com que falava, e uma prestação pouco esforçada entre as músicas, Casablancas teve o público na mão, chegando mesmo a descer às grades antes de iniciar a River of Brakelights. A sua aparição foi tão rápida como o seu desaparecimento, e embora o público apelasse insistentemente por um encore, Casablancas não voltou. Segundo a Blitz, o seu atraso e desaparecimento deveram-se a uma indisposição por parte do artista.

    Hot Chip seguiram-se. Um misto de visual geek com electro-indie, improvável. Mas funciona, e funciona muito bem. Os Hot Chip sabem para quem estão a tocar e sabem o que dar aos que os aplaudem. O visual rapidamente revela funcionar, e a banda destila energia por todos os poros. Praticamente sem paragens entre as músicas e não comunicando muito, meteram o público a saltar, a cantar e a aplaudir, desaparecendo para deixar o público à espera dos Vampire Weekend.

    Apesar de serem uma banda relativamente recente, os Vampire Weekend são bem conhecidos por entre o público português, e a sua actuação era provavelmente a mais esperada da noite. E a banda liderada por Ezra Koenig não desiludiu, e deu, na minha opinião, o melhor concerto de todo o festival. É sabido que a reacção do público representa grande parte da qualidade de uma banda ao vivo. As palmas, os saltos, as mãos levantadas e as vozes em uníssono. E os Vampire Weekend tiveram tudo isso na mão desde o inicio - o público queria-os, e fez questão que eles soubessem. Numa setlist extremamente completa, intercalando momentos do primeiro e segundo álbuns, os Vampire Weekend foram competentes, energéticos e comunicativos, e momentos como as conhecidas Oxford Comma, A-Punk, Cousins e One (Blake's Got a New Face) primaram por saltos, danças e gritos em todas as direcções, e se estas já roçaram o épico, a final, Walcott, é provavelmente dos melhores momentos de todo o festival. O público grita a plenos pulmões pelos Vampire Weekend, fazendo tanto barulho que nem Koenig (visivelmente espantado e divertido pela reacção inesperada do público às suas músicas) consegue falar. Mas acabam por ter de se ir embora, para grande insatisfação do público, que fica entregue aos Leftfield no palco principal.

    Tempo de carregar novamente as baterias depois do concerto explosivo, a debandada do público após Vampire Weekend é geral e poucos restam, mas os pioneiros (embora pouco conhecidos por terras portuguesas) do misto de house com chill-out Leftfield continuam com um público respeitável à sua frente. Apenas conhecia Leftfield de algumas músicas que tinha por aí ouvido, e não esperava, nem de longe, a vertente psicológica do espectáculo que deram. De facto, poucas bandas seriam mais perfeitas após o gasto de energia. O baixo era sempre dominante e a batida, extremamente contagiante, mas suficientemente lenta para ser considerada downtempo, seguia no que aparentava ser um loop progressivo, uma agressividade calma. Pelos ecrãs laterais passavam estradas, raios, espaço e símbolos. Leftfield, acima de música, era uma viagem quase que dormente pela mente. O chão tremia e a batida acelerava, mas a mestria dos Leftfield mantinha o público preso à música e ao ritmo; "feel it!", gritavam durante a actuação. Aclamados pelos que com eles dançavam, voltaram para um encore - e quem pensava que todo o sentimento e sensação que geraram durante o resto do concerto tinham sido perdidos estava redondamente enganado. Os Leftfield regressaram e voltaram a fazê-lo. Mas ainda mais forte. Tocando ainda mais que o previsto, terminaram da mais perfeita forma um excelente dia de festival.

    A maior afluência é esperada, obviamente, no terceiro dia, dado que o nome de Prince fala por si. Rapidamente se nota isso, dado que as filas da frente são preenchidas por gente com uma idade superior às dos dois passados dias, liderados quase na totalidade por jovens. Palma's Gang é a primeira banda, e que excelente banda para começar. A intimidade entre a banda e o público é bastante grande, sendo os rostos que a compõem conhecidos pelos portugueses. Apesar da voz pouco sóbria de Jorge Palma e do copo de cerveja que recebeu aplausos, a banda tocava agradada com o resultado final e com o público, e melhor concerto seria difícil.

    Novamente na frente, tinha bastante curiosidade acerca dos Stereophonics. Comecei a ouvi-os à pouco tempo e gosto bastante da sonoridade, mas parecia-me evidente que poucas pessoas os conheceriam, ainda para mais quando o público era composto por pessoas que estavam ali apenas por Prince. E, infelizmente, as minhas suposições demonstraram estar certas. Apesar de um excelente concerto repleto de energia, os galeses liderados por Kelly Jones não cativaram o público, à excepção de alguns braços levantados nas mais conhecidas e de alguns indefectíveis que saltavam e cantavam na multidão.

    De facto, era notório que as duas primeiras filas estavam completamente dominadas por público que apenas queria ver Prince de perto, e se demonstrava pouco receptivo às outras bandas. Esse ponto, a meu ver, foi um dos mais prejudiciais de todo o dia 18, que poderia ter sido excelente de outra maneira. Seguiram-se os Spoon, que acabaram por sofrer do mesmo problema que os Stereophonics, embora tenham sido competentes no que fizeram. Um avião a realizar acrobacias aéreas distraiu a audiência (e os próprios Spoon, que tocavam enquanto olhavam para ele), mas a banda recuperou bem, e nos momentos finais até conseguiu uma boa reacção geral.

    The National, uma banda com uma legião de fãs em Portugal, foi a outra responsável pela enchente de dia 18. Apesar do aspecto sóbrio, da voz profunda e do aspecto sentimental das músicas, Matt Berninger demonstrou ser um afável e humilde frontman, que tanto batia nas colunas, como gritava ao microfone, como descia à plateia. E o público que ali estava para o ver, provou que não era pouco, e correspondeu com saltos e palmas, outros choravam até. Daí que tenha sido difícil a despedida quando terminaram a actuação - "Fuck Prince, you are better than Prince!", gritava um fã enquanto Matt Berninger elogiava o artista que se seguia.

    E a verdade é que assim que Berninger se sumiu, uma legião inteira de pessoas comprimiu toda a fileira da frente até quase não haver espaço para respirar. Finalmente o momento pelo qual os indiferentes da fila da frente haviam esperado todo o dia. Embora seja um leigo no que concerne a toda a matéria de Prince, tinha curiosidade em vê-lo, além de não perder nada. E não me arrependi. Bastante comunicativo, Prince puxava constantemente pelo público, dirigindo-o por uma sucessão de músicas intercaladas entre si. Um excelente showman, tocava solos estridentes, cantava e dançava. Por curtos momentos conseguiu até que todo o público saltasse. Depois do primeiro encore, trouxe consigo a já esperada Ana Moura, que cantou dois fados, que Prince por vezes acompanhava na guitarra. Um segundo encore trouxe a ansiada Purple Rain, um dos maiores sucessos do artista, que o público não deixou de cantar mesmo após quase cinco minutos sem qualquer desenvolvimento.
    Assim, a minha opinião acerca de Prince é um pouco mista. Por um lado, reconheço-lhe um enorme talento e confiança em palco, um verdadeiro homem do espectáculo, que dramatiza movimentos e toca solos magníficos, por outro lado não consegui deixar de achar que a sua actuação, além de puxar bastante pelo público, tivesse a dose certa de loucura (ou será que sou eu que sou apenas demasiado apaixonado por finais poeirentos e caóticos?). Ainda assim, deu uma performance energética e foi certamente memorável para os que o foram ver.

    Êxodo da multidão assim que Prince terminou, os resistentes finais ficaram para Empire of the Sun, o último concerto do palco principal do Super Bock Super Rock. Apesar de ter expectativas que Luke Steele terminasse em grande o festival, o concerto foi alguns furos abaixo do que esperava. Não porque Steele ou a sua "trupe" não se esforçassem por isso, as músicas resultam bem ao vivo, há um seguimento lógico entre o som e o trabalho dramático traz à memória Pet Shop Boys, dois dias antes. No entanto, grande parte do público estava simplesmente parada a olhar para o palco, praticamente nem aplaudindo quando as músicas terminavam ou quando Steele pedia palmas. Foram excepções os singles mais conhecidos "We Are the People" e "Walking on a Dream", que conseguiram levantar alguns saltos e mãos no ar, mas o clima continuou frio pelo palco principal. Laurent Garnier, no entanto, parecia estar a ter bem mais sucesso, com a tenda cheia e uma música também caracterizada pelo baixo dominante que caracterizava o sucesso dos Leftfield na noite anterior.

    E assim terminou a 16º edição do SBSR. Como opinião acerca do "renascimento" do festival, acredito que se continuar com esta formato só tem a ganhar. Situa-se algures entre um Paredes e um Alive, aparentemente no meio do nada, mas bem perto de Lisboa (se bem que isso é relativo, é uma zona de difícil acesso). À excepção de Prince, o cartaz até estava bastante bem realizado (apenas refiro Prince porque é notável que não encaixa muito bem nos outros nomes, mesmo os do próprio dia, mais alternativos e dedicados um público mais jovem). As restrições sem sentido, com um objectivo puramente capitalista, a falta de condições no campismo, os autocarros que ninguém sabia de que entrada partiriam (partiram da entrada principal e não da entrada do acampamento, o que não é de todo simpático, dado que quem vai à praia são os campistas, obviamente).
    Fora de todos os erros, foi um bom festival, onde me diverti imenso, com especial nota para dia 17, que duvido que pudesse ter tido duas melhores bandas finais.